Alento

Vim de manhã tocar os pés na grama, sentir o vento que sopra do horizonte tocar suavemente a pele; essa pele que reveste um ser pulsante, uma alma que vibra e que sente o equilíbrio quando está em contato com a natureza. Sinto aqui a minha miudeza. A pequenez de alguém que não cabe em lugar algum. Por isso encontro o refúgio nos braços da Mãe Natureza: tenho espaço de sobra pra libertar a imensidão que aqui dentro vive.

 

Deito o corpo frágil sobre o manto verde e tenho a alma regada pelas gotas que caem timidamente do céu. Sinto-me parte de algo grandioso e belo. Fecho os olhos e sinto as gotas se fundirem com as lágrimas que escapam timidamente dos olhos. E apenas sinto. A chuva que rega o corpo; as lágrimas que limpam a alma. Não há tristeza. Os sentimentos que se misturam aqui dentro são tão belos a ponto de me emocionarem. Há também um sentimento novo dentro do peito. Tão comum aos outros, mas nunca antes em mim. Leve, tranquilo e tão belo, que me arrebatou em um momento sem cores, e coloriu cada detalhe. Sentimento este que me tocou tão profundamente e me transformou da forma mais bonita.

 

Aqui, deitada no alento de todo o verde em volta, quero despir a minha alma e arrancar do peito toda e qualquer dúvida, ou medo, ou qualquer coisa que torne tudo isso um pesadelo. Ser serena, ser calmaria, ser mais e mais grata pela beleza de tudo e viver a paz de um dia bonito e leve. Quero cultivar cada sentimento, semear amor, mas não me demorar onde não for possível florescer.

 

[…]
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Visceral

Uma noite dessas, durante um longo tempo, deitei no quintal e olhei as estrelas. Observar o céu é ter a consciência da minha miudeza. Sou um grão de areia derramado sobre o solo de uma grande esfera em meio ao mistério. Tão pequena que a imensidão que vive dentro de mim já ultrapassa os limites do ser. Transbordo.

São belas as coisas que trago no peito, apesar das feridas que ainda estão em um processo lento de cicatrização. Tenho vivido um grande aprendizado.
A gratidão tem sido uma companhia constante.
E o amor também.

Tenho tentado ser uma pessoa melhor. E, quando pareço falhar, a culpa que preenche o peito é dolorosa. Esse pensamento de ser insuficiente está tão enraizado aqui dentro, que cortar essas raízes tem sido uma batalha diária! Às vezes acolhemos certos traumas sem perceber, mas acredito que somos maiores que os nossos próprios demônios. Estou exausta, mas tenho feito o melhor que posso, ainda que pareça tão pouco. Não é, acredite. Ainda sou a pessoa que se esconde atrás de medos que me paralisam.
Medo de me doar,
medo de demonstrar,
medo de sentir demais.
Mas, quero chegar no fim do dia, colocar a cabeça no travesseiro e sentir que doei amor para as pessoas que me cercaram, sem querer algo em troca porque consequentemente serei eu a receber mais. Disso não tenho dúvida.

Não sou uma pessoa especial, inclusive não tenho certeza se mereço todas as coisas e pessoas incríveis que me acontecem. Mas sou grata. Muito grata! E, por isso, essa vontade de retribuir ao mundo tamanha gentileza, ganha tanta força. Todos nós somos especiais. E todos estamos em nossas jornadas. A minha é baseada em ser revestida de todo amor e paz, e transbordar sem medo. Cultivar meu jardim interior, florescer e doar. E baseada também em tantas coisas mais que ainda desconheço, mas que são feitas dos mais belos sentimentos que posso carregar.

Olhar as estrelas me fez perceber o quanto quero me conectar mais às vidas que estão entrelaçadas à minha e viver essa conexão de forma intensa, verdadeira, pulsante. Não ter medo. Principalmente não temer sentimentos bons que possam surgir. Não me privar de sentir. Apenas sentir.
Sorrir,
abraçar,
olhar nos olhos,
demonstrar esse afeto que tanto banalizam, e que não é banal; é uma força poderosíssima!

Não me importa se tudo isso parece tão piegas. Não, isso é tudo o que sou. Cada parte desse corpo frágil, instável e finito vibra intensamente a cada instante, a cada miudeza e simplicidade dessa vida um tanto confusa. Fecho os olhos e penso na grandeza do Universo. Sinto-me preenchida de gratidão pela chance de me encantar com a beleza de tudo o que os meus olhos tocam e meu coração sente. Isso me arde o peito, alenta a alma, traz calma. E, embora ainda seja pequena, insignificante, tenho tido cada vez mais amor dentro de mim. E quero, cada vez mais, me agarrar as estes sentimentos e não ter receio em ser rio que transborda.